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sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Recife/PE: A cidade forjada por imigrantes

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A partir da metade do século XIX, tanto a Europa quanto a Ásia estiveram envolvidas em grandes movimentos migratórios, que surgiram devido a mudanças sócio demográficas, às transformações causadas pela expansão do capitalismo e a instabilidades políticas. A transição demográfica, que começou no século XVIII, dificultou a absorção dos excedentes populacionais por esses continentes, levando à emigração em larga escala. Fatores como o avanço das comunicações e a diminuição dos custos de transporte contribuíram para essa situação (Klein, 1989; Bassanezi, 1996).

No Brasil, a abundância de terras não cultivadas, a acessibilidade do mercado de trabalho, a expansão do capitalismo e várias circunstâncias momentâneas fizeram do país um destino atrativo para imigrantes. Entre 1890 e 1930, mais de 3,5 milhões de imigrantes, incluindo europeus, asiáticos e árabes, entraram no Brasil. O país se inseriu plenamente no contexto global de imigração em massa, rivalizando com os Estados Unidos e a Argentina, sendo identificado como o terceiro maior receptor de imigrantes na América (Bassanezi, 1996).

Diferentemente de outros estados do Brasil, Pernambuco não foi um destino popular para os imigrantes europeus, asiáticos e árabes que chegaram a partir do final do século XIX. A escolha normalmente recaiu sobre estados como São Paulo, que se destacou por receber a maior parte dos imigrantes que habitavam o Brasil.

Entretanto, os censos históricos realizados em 1872, 1890, 1900 e 1940 mostram que Pernambuco foi o segundo estado do Nordeste a acolher um número significativo de imigrantes; a Bahia foi o primeiro. O censo de 1920 revelou que Pernambuco tinha uma população estrangeira considerável; Recife abrigava 86,7% dos 11.698 imigrantes em todo o estado, sendo que a maior parte dessa imigração ocorreu de forma espontânea, ou seja, bancado pelos próprios imigrantes.

Ao longo de sua trajetória, Recife reuniu imigrantes de diversas nacionalidades, que ajudaram a moldar a demografia e a cultura do local. Esse “conjunto diversificado de nacionalidades” (Hirano e Carneiro, 2016) começou a se formar durante o período colonial com a presença dos portugueses e holandeses e com a abertura dos portos; novos elementos foram se adicionando à base lusitana trazidos pelos estrangeiros (Diegues Junior, 1964).

Os ingleses chegaram ao Recife após a Abertura dos Portos, em 1808, tornando-se uma comunidade significativa entre a população local. Recife é uma das poucas cidades no Brasil que possui um cemitério britânico, inicialmente chamado de British Cemetery. Esse espaço foi doado por D. João VI ao Cônsul Inglês após a Abertura dos Portos. Em 1838, a comunidade inglesa construiu a Holy Trinity Church, conhecida popularmente como "igrejinha dos ingleses", que foi demolida em 1946 devido à necessidade de alargamento da rua, sendo posteriormente reconstruída em outro local. Ao longo do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, diversos edifícios foram erguidos por imigrantes ingleses (Vainsencher, 2009; Tavares, Colvero, 2015).

Além das construções, os britânicos foram os primeiros a explorar serviços públicos, como as instituições bancárias, a engenharia hidráulica para o processo de purificação do açúcar (Vainsencher, 2009), e a introdução do primeiro trem urbano do Brasil, o maxabomba, uma pequena máquina a vapor com três vagões para passageiros, além de outros serviços fundamentais que foram confiados a companhias britânicas (Duarte, 2005).

No início do século XIX, Recife tinha um Consulado Geral dos Estados Unidos, criado em 1815, sendo este o mais antigo posto de representação diplomática americana no Brasil. Ainda no século XIX, no dia 4 de abril de 1886, missionários dos Estados Unidos fundaram a primeira Igreja Batista em Recife, que a princípio foi chamada de Egreja de Christo. Essa igreja é reconhecida como o sexto templo batista estabelecido no Brasil (Silva, 2003).

Os missionários batistas dos Estados Unidos também foram os fundadores do primeiro Colégio Batista do Recife, que iniciou suas atividades graças aos esforços dos Doutores William Henry Canadá e Salomão Luiz Ginsburg (Silva, 2012). A aula inaugural ocorreu em 1902, em uma pequena casa ao lado da Igreja Batista, com a participação de quinze estudantes. No dia 15 de janeiro de 1906, os missionários abriram o Colégio Americano Gilreath, que passou a ser conhecido como Colégio Americano Batista em 1916.

Foi neste colégio que o sociólogo Gilberto Freyre começou e finalizou seus estudos entre 1908 e 1917. Seu pai, Dr. Alfredo Freyre, além de ser professor (1907-1934), usou sua influência para promover a reputação do Colégio na sociedade de Recife (Silva, 2012). O Colégio Americano Batista ainda opera, oferecendo ensino de qualidade.

Um acontecimento significativo ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial, entre 1941 e o início de 1944, quando Recife foi selecionada como a base naval da U. S. Navy, resultando em um aumento considerável do número de norte-americanos na cidade. Durante a estadia das tropas americanas, foram criados dois locais de lazer e entretenimento, acessíveis ao público local: o U. S. O Club, localizado no prédio do Cassino Americano, atualmente no bairro do Pina; e o U. S. O. Town Club, que ficava na antiga av. 10 de novembro, hoje conhecida como rua do Sol (Siqueira, 2020).

Em 1840, a sociedade de Recife já era influenciada por elementos franceses na moda, literatura e gastronomia, sendo o estilo francês o preferido da população. Nesse período, estavam em andamento iniciativas para modernizar a infraestrutura urbana, lideradas pelo presidente da província, Francisco do Rego Barros, o Conde da Boa Vista, que contou com a colaboração do engenheiro Louis-Léger Vauthier e sua equipe. Juntamente com outros engenheiros, Vauthier foi responsável por diversos projetos de estradas e edificações, incluindo o Teatro Santa Isabel, projetado no estilo da arquitetura neoclássica (Poncioni, 2010).

Um exemplo da influência francesa na arquitetura é a construção do Hospital Pedro II, que foi realizado segundo o modelo criado pelo médico Jacques-René Tenon, seguindo o estilo pavilhonar (Pereira, 2011). A presença francesa em Recife, unida ao desejo por modernidade, teve um grande impacto nas primeiras décadas do século XX em relação à culinária. A sociedade experimentava uma espécie de "belle époque" em sua gastronomia local (Toscano, 2013). Os franceses enfrentavam concorrência intensa dos ingleses nos mercados internacionais. Seu impacto mais significativo se manifestou na vida intelectual, com a França servindo como um centro de uma revolução bibliográfica (Mota, p. 47, 1970).

Durante a ocupação holandesa, foi erguida a primeira Sinagoga das Américas, Kahal Zur Israel, cuja construção começou em 1638 e foi finalizada em 1641, localizada na rua do Bom Jesus, no bairro de Recife. Naquele tempo, a rua era conhecida como rua do Bode – Bokestraet (BRASILIANA FOTOGRÁFICA).
Com a saída do governador Maurício de Nassau, que resultou na expulsão dos holandeses em 1654, a comunidade judaica fugiu, e a via passou a ser conhecida como rua da Cruz. Apenas em 1870, recebeu a nova designação de rua do Bom Jesus. É importante mencionar que essa via foi destacada na reportagem “31 das ruas mais bonitas do mundo”, escrita por Nick Mafi, publicada na revista americana Architectural Digest em 26 de novembro de 2019, como a terceira mais bela do planeta, sendo a única do Brasil na lista (BRASILIANA FOTOGRÁFICA).A confirmação da presença de uma comunidade alemã em Recife remonta às primeiras décadas do século XIX, com a instalação do Consulado Prussiano, posteriormente substituído pelo Consulado Alemão na metade do século. De acordo com Gilberto Freyre (1987), a influência alemã em Pernambuco era claramente evidente no comércio, nas artes, nas indústrias e na execução de experimentos agrícolas, competindo com produtos britânicos e franceses. Os imigrantes alemães se estabeleceram entre Recife e a região industrial de Paulista.
ALBUQUERQUE, Vanessa Pereira de. Controcorrente: episódios da presença italiana em Pernambuco (1880-1930). Dissertação (Mestrado em História Social e Cultura Regional) – Departamento de História – Universidade Federal Rural de Pernambuco, Recife, 2017.
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CÂMARA, Bruno Augusto Dornelas. O “retalho” do comércio: a política partidária, a comunidade portuguesa e a nacionalização do comércio a retalho, Pernambuco 1830-1870. Tese (Doutorado), Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2012.
DIÁRIO DE PERNAMBUCO. Os chineses e suas atividades no Recife, 12/02/1936. Disponível em: <(http://memoria.bn.br/docreader/DocReader.aspx?bib=029033_11&PagFis=18274)>.  Acesso em: 27 de março de 2024.
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DUARTE, José Lins. Recife no tempo da maxabomba (1867-1889). O primeiro trem urbano do Brasil. Dissertação (Mestrado) Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal de Pernambuco, 2005.
FFRRAZ, Luiz Paulo Pontes. “Deus te leve a Pernambuco”: antilusitanismo, legislação e estatística na história da imigração portuguesa para Pernambuco (1945-1964). Dissertação (Mestrado), Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2014.
FREYRE, Gilberto. Nós e a Europa germânica. 2° ed. Rio de Janeiro: Editora Bra-Deutsch Ltda., 1987.
HAZIN, Hissa Mussa. Imigrantes palestinos, identidades brasileiras: compreendendo a identidade palestina e suas transformações. Dissertação (Mestrado) – Programa de Pós-Graduação em Antropologia – Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2016.
HIRANO, Sedi, CARNEIRO, Maria Luiza Tucci Carneiro. Histórias migrantes: caminhos cruzados. São Paulo: Humanitas/FAPESP, 2016.
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MOTA, Carlos Guilherme. A presença francesa no Recife em 1817. Cachiers du monde hispanique et luso-brésilien, n. 15, 1970, Brésil, pp. 47-56.
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No começo do século XX, os alemães que viviam em Recife já tinham empresas financeiramente robustas; muitos acumularam riquezas como comerciantes e fizeram contribuições importantes nas artes. Um caso notável é o do arquiteto de origem alemã, que obteve nacionalidade brasileira, Heinrich Moser, que chegou a Recife em 1910. Ele foi convidado por sua tia Júlia Doederlein, conhecida como Madame Júlia, para ajudar na reforma de um prédio que era de sua propriedade: a Casa Alemã, um comércio luxuoso localizado na Rua Barão da Vitória, atualmente chamada Rua Nova. Moser trouxe a cultura dos vitrais para prédios públicos em Recife, sendo lembrado especialmente pelo magnífico vitral triplo que produziu para o Palácio da Justiça. Ele foi um dos primeiros a introduzir a produção de vitrais na região Nordeste (Lócio, 2018).

Além de suas ações no comércio, na indústria e nas artes, os alemães também contribuíram nas áreas da saúde e da educação. O Abade Beneditino Dom Pedro Roeser foi um dos principais responsáveis pela fundação do Hospital do Centenário, que foi inaugurado em 3 de maio de 1925, e que se tornou fundamental para a profissionalização da enfermagem em Recife. Dom Pedro Roeser trouxe da Alemanha onze enfermeiras formadas, que faziam parte da Cruz Vermelha Alemã, para implementar um serviço de enfermagem considerado de alta qualidade na época. Ademais, Roeser esteve envolvido na fundação da Primeira Escola de Agricultura e Veterinária do Brasil, atualmente conhecida como Universidade Federal Rural de Pernambuco (Abrão et al, 2010).

A emigração de portugueses para Recife teve suas particularidades. Foi um processo de emigração inicial, que começou durante o período colonial e se estendeu até a primeira década da década de 1960, com uma diminuição significativa no fluxo após esse período. Por um longo tempo, os portugueses representaram o maior grupo espontâneo de imigrantes em Pernambuco e foram o mais relevante contingente estrangeiro a entrar em Recife (Ferraz, 2014; Câmara, 2012).

Os portugueses estavam presentes em diversos setores da economia de Recife e exerciam várias funções, sendo especialmente notáveis no comércio de fazendas, lojas de secos e molhados, além de outros tipos de estabelecimentos de varejo. Eles se destacaram na atividade de caixeiragem, tanto em grandes quanto pequenos negócios. A proeminência dos comerciantes portugueses na praça comercial de Recife causou desconforto entre esses e os comerciantes locais, gerando tensões de natureza antilusitana. Conflitos de lusofobia também foram observados entre membros do exército que criticavam os abusos dos oficiais portugueses. Esses incidentes foram significativos na presença portuguesa em Pernambuco até a década de 1930 (Ferraz, 2014; Câmara, 2012).

Simultaneamente ao movimento antilusitano, a comunidade portuguesa no Recife fortaleceu sua relevância econômica e política na sociedade. Redes de apoio foram formadas através de entidades étnicas que atuavam como espaços de convivência para os imigrantes, ajudando a reforçar a identidade cultural e social, além de oferecer um caráter associativo ao grupo. Entre essas entidades, destacam-se o Gabinete Português de Leitura de Pernambuco, criado em 1850, o Clube Almirante Barroso, fundado em 1909, e o Clube Português do Recife, estabelecido em 1934. Os portugueses também deixaram sua marca em áreas como língua, música e arquitetura (Ferraz, 2014; Câmara, 2012), além de serem grandes empresários (Mendonça, 2010).

De acordo com um levantamento sobre a herança portuguesa feito pela Fundação Calouste Gulbenkian (Lisboa-PT), a cidade de Recife possui um dos mais significativos patrimônios lusitanos do Brasil. No total, são dezenove construções nas áreas de arquitetura religiosa, militar e residencial. Recife é a terceira capital brasileira com o maior número de exemplos do urbanismo português ultramarino (Diário de Pernambuco, 06/05/2017).

Antes da significativa migração de judeus que ocorreu no século XVII, "cristãos novos hispano-portugueses" já habitavam o território pernambucano. O pesquisador Odmar Braga relata que, entre 1580 e 1595, existiam duas sinagogas localizadas no Alto da Ribeira e no Engenho Camaragibe, pertencentes à mesma família (Pascoal, s/d).

No século XVII, judeus da Península Ibérica, que fugiam da Inquisição, chegaram ao Recife. Portugal implementou a distribuição de terras para assegurar a posse da terra. Para ter direito à terra, os judeus precisaram se converter, tornando-se cristãos novos (Pascoal, s/d).

O intenso fluxo migratório coincidiu com a ocupação holandesa, entre 1630 e 1654. Durante esse período, os judeus, conhecidos como sefarditas, afirmaram sua identidade religiosa, já que a Holanda, um país calvinista, suportava diversas vertentes religiosas. Sob a tutela do governo de João Maurício de Nassau-Siegen, os judeus formaram uma comunidade próspera, estimando-se que sua população variava entre 1.500 e 5.000 indivíduos (Pascoal, s/d; Kaufman, 2000; Lurdermir, 2005).

No início do século XX, uma nova comunidade judaica se instalou em Recife, optando pelo bairro da Boa Vista para residência, ao lado dos ingleses que já moravam lá. Recife acolheu judeus de várias origens, como russa, ucraniana, romena e eslava, que compartilhavam a língua, a cozinha e as festividades religiosas, destacando a identidade cultural desse grupo (Kaufman, 2000; Lurdermir, 2004, 2005).

Desde o começo do século XIX, os imigrantes italianos já faziam parte da sociedade de Recife. Alguns chegaram acompanhando companhias líricas, que realizavam peças de teatro, óperas e concertos, enquanto outros vieram como engenheiros, arquitetos e artistas, ajudando a transformar os espaços urbanos da cidade. A maioria chegou com pouco dinheiro e, com o tempo, conseguiu melhorar sua situação financeira. No final do século XIX, devido a várias melhorias, como a modernização do Porto do Recife, o crescimento da cidade e a expansão das iniciativas privadas no comércio e na indústria, houve um aumento significativo de imigrantes italianos (Andrade, 1992).

A comunidade italiana teve um papel importante no comércio, especialmente nas áreas de alfaiataria, calçados, alimentos, objetos de decoração e tinturaria, tornando-se fundamental para o desenvolvimento industrial do estado, especialmente na década de 1920. Em 1920, por exemplo, o italiano Giuseppe Francesco Conte fundou a Indústria Metalúrgica Pernambucana, hoje conhecida como Alumínio IPAM Indústria e Comércio, que ofereceu emprego a um número relevante de descendentes. Nesse mesmo ano, a fábrica de refrigerantes Fratelli Vita, que funcionava em Recife desde 1913, prosperou e mudou-se para um edifício maior localizado na Praça da Soledade (Andrade, 1992; Albuquerque, 2017).

Devido à relevância de seu porto e ao desenvolvimento industrial, em setembro de 1921, foi criada no Recife a Câmara Italiana de Comércio para as regiões Norte e Nordeste, com o propósito de facilitar o intercâmbio de mercadorias, pessoas e ideias. Além de unir a comunidade italiana, principalmente em Pernambuco, sua missão era proteger e promover o avanço das relações comerciais entre Brasil e Itália.

Os imigrantes italianos em Recife contaram com o benefício de uma agência do Banque Française et Italienne. Tommaso Febaro era o presidente, enquanto o consulado italiano Bruno Zuculin exercia a presidência honorária. No Norte-Nordeste do Brasil, o Banque tinha filiais apenas em Recife e Salvador (Andrade, 1992; Albuquerque, 2017).

O historiador Vittorio Cappelli declara que, “do ponto de vista quantitativo, a presença italiana no Recife é a mais forte de todo o Nordeste” (CAPPELLI, 2007, p. 21).

A presença da Espanha em solo recifense remonta aos primeiros tempos da colonização. Pouco se sabe sobre essa imigração. Em 1920, o censo revelou a existência de 1.014 espanhóis no estado de Pernambuco (IBGE). Em seus estudos sobre a migração espanhola para o Brasil, Martinez (2000, p. 248) indicou que em 1931, 476 espanhóis viviam no Recife, dos quais a maioria, cerca de 70%, eram galegos, 5% catalães, 5% andaluzes, 5% castelhanos velhos e 10% oriundos de outras áreas. De acordo com a autora, na época, o Consulado mantinha uma conta de poupança conhecida como Caja de Ahorros.

Os imigrantes do Oriente Médio começaram a chegar ao Recife no começo do século XX, oriundos da Palestina, Síria e Líbano. Suas principais atividades profissionais incluíam comércio e trabalho em indústrias pequenas. Esses imigrantes se estabeleceram e abriram seus negócios no bairro de São José, ocupando diversas ruas na área. Na Transição das décadas de 1930 para a de 1940, foi criado o Esporte Clube do Oriente, que se tornou não apenas um espaço de convivência social, mas também formou equipes de futebol e vôlei. Na primeira metade da década de 1940, a comunidade libanesa fundou o Clube Líbano Brasileiro, que inicialmente funcionou no bairro de Casa Amarela. Posteriormente, sua nova sede foi inaugurada no fim da década de 1950, no bairro do Pina, se tornando um ponto de encontro para sírios, libaneses e a comunidade árabe que reside no Recife. O Recife abriga a segunda maior população palestina (e seus descendentes) no Brasil (Hazin, 2016).

Os primeiros imigrantes japoneses a se estabelecer no Recife foram Asanobuske Gemba e seu filho Matsuichi, que chegaram em 1918. Eles se instalaram no bairro do Cordeiro e começaram a cultivar hortaliças. Durante a década de 1930, outros japoneses também começaram a se estabelecer na cidade. Atualmente, Pernambuco abriga a terceira maior comunidade japonesa do Brasil, concentrando-se especialmente no Recife, Bonito e Petrolina (Portal Nippo Brasil, s/data).

Os imigrantes chineses começaram a se instalar no Recife a partir do início dos anos 1920. Eles se estabeleceram no centro da cidade, atuando em serviços de lavanderia, pequenos comércios e fabricação de mosqueiros. Em 1936, a comunidade chinesa contava com 103 homens, a maioria solteiros, que coabitavam com mulheres brasileiras (Diário de Pernambuco, 12/02/1936). Segundo uma publicação do Diário de Pernambuco, “as mulheres não [deixavam] seu país facilmente.” A população chinesa na cidade começou a crescer a partir da década de 1970.

Embora em menor quantidade, imigrantes de outras nacionalidades, como suíços, escoceses, gregos, dinamarqueses, russos e belgas, também ajudaram a formar o que hoje podemos chamar de “Recife: uma sociedade plural.”



 

Texto de Eugênio Pacelly Alves

 


 

Referências bibliográficas:

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quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Entre continentes e gerações: O que o DNA revela sobre a origem dos brasileiros

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Os brasileiros constituem uma das populações mais diversas do planeta, resultado de cinco séculos de interações entre diferentes etnias provenientes de três continentes: colonizadores europeus, especialmente portugueses; africanos trazidos como escravizados; e povos nativos americanos. Quando os portugueses desembarcaram, há cerca de 500 anos, aproximadamente 2,5 milhões de indígenas habitavam o território que hoje conhecemos como Brasil. A miscigenação entre portugueses e indígenas iniciou-se rapidamente após a chegada dos primeiros colonizadores. As relações entre homens europeus e mulheres indígenas tornaram-se frequentes e, posteriormente (após 1755), passaram a ser incentivadas como estratégia para promover o crescimento populacional e a ocupação do território.

As populações indígenas sofreram um acentuado declínio demográfico em decorrência de conflitos com os colonizadores europeus e da exposição a doenças para as quais não possuíam imunidade. Atualmente, estima-se que existam aproximadamente 326.000 indígenas no Brasil, vivendo em terras demarcadas pelo governo federal.

Os africanos começaram a ser trazidos para o Brasil a partir do século XVI, sendo escravizados para trabalhar inicialmente nas plantações de cana-de-açúcar e, posteriormente, em minas de ouro e diamantes, além das lavouras de café. Registros históricos indicam que, entre 1551 e 1850 — período que antecede o fim do tráfico transatlântico de escravizados —, cerca de 3,5 milhões de africanos chegaram ao Brasil.

No que se refere à imigração europeia, estima-se que aproximadamente 500.000 portugueses tenham se estabelecido no país entre 1500 e 1808. A partir desse período, com a abertura dos portos brasileiros às nações amigas, o Brasil passou a receber um fluxo crescente de imigrantes de diversas regiões do mundo. Portugal foi, de longe, a principal fonte de migrantes, seguido por Itália, Espanha e Alemanha. No século XX, também chegaram ao país imigrantes asiáticos, especialmente do Japão, além de grupos oriundos do Líbano e da Síria. De acordo com Callegari-Jacques e Salzano (1999), entre 1500 e 1972, 58% dos imigrantes que chegaram ao Brasil eram de origem europeia, 40% africana e 2% asiática.

Diante desse contexto histórico, coloca-se a seguinte questão: qual foi a contribuição desses diferentes grupos para a herança genética dos brasileiros contemporâneos?

Diversos estudos foram conduzidos nas últimas décadas com o objetivo de compreender a formação genética da população brasileira não indígena (para uma revisão, ver Salzano, 1997; Callegari-Jacques e Salzano, 1999; Dornelles et al., 1999; Guerreiro et al., 1999). Essas investigações concentraram-se predominantemente em amostras das regiões Norte e Sul do Brasil. Utilizando marcadores genéticos clássicos, tais estudos demonstraram que todos os grupos analisados apresentam algum grau de miscigenação, cuja intensidade varia conforme a região considerada.

Mais recentemente, determinadas amostras da população brasileira foram analisadas com base no DNA mitocondrial (mt-DNA) e em polimorfismos do cromossomo Y (Batista dos Santos et al., 1999). As investigações envolvendo mt-DNA revelaram que as contribuições indígenas e africanas para as populações do Norte do Brasil são superiores às previamente estimadas por meio de marcadores genéticos clássicos.

Nos últimos dez anos, o mt-DNA tem sido amplamente estudado, desde os trabalhos pioneiros de Vigilant (1990), Stoneking et al. (1991) e Vigilant et al. (1991). A análise filogeográfica das linhagens de mt-DNA em populações de diferentes regiões do mundo levou à identificação de haplogrupos específicos para africanos, europeus e asiáticos/ameríndios. A determinação do haplogrupo de uma linhagem específica de mt-DNA permite inferir sua origem (sub)continental, possibilitando uma análise detalhada da ancestralidade matrilinear em populações miscigenadas.

Neste artigo, adotamos essa abordagem metodológica por meio do sequenciamento de uma porção da região controle do mt-DNA e da investigação de sítios específicos de RFLP, com o objetivo de compreender de forma mais precisa a magnitude das contribuições genéticas matrilineares de europeus, africanos, indígenas e asiáticos para o patrimônio genético dos brasileiros contemporâneos.

 


Texto de Eugênio Pacelly Alves



Referências bibliográficas:

Populações brasileiras. Disponível em: >(https://etnolinguistica.wdfiles.com/local--files/biblio%3Asalzano-1967-populacoes/Salzano%26FreireMaia_1967_PopulacoesBrasileiras.pdf)<. Acesso em 04 de março de 2025.

Variabilidade do gene da fibrose cística em duas populações ameríndias do sul do Brasil: análise da mutação ∆F508 e dos haplótipos KM19 e XV2CDisponível em: >(https://www.jstor.org/stable/41466462)<. Acesso em 04 de março de 2025.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Descendentes do Capitão Antônio Vieira de Torres Bandeira de Pombal/PB de 1818 a 1850

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Capitão Antônio Vieira de Torres Bandeira, nascido aproximadamente em 1818 em Pombal/PB e se casou com Francisca Ursulina do Amor Divino. Desse matrimônio tiveram 12 filhos. São eles:

1. João Vicente de Torres Bandeira, nascido em 1823 e se casou com Maria Lourença de Torres Bandeira. Desse matrimônio tiveram 13 filhos. São eles:

1.1. Manuel de Torres Bandeira, nascido em 1837.

1.2. Benedito Cavalcante de Torres Bandeira, nascido em 1844 em Pombal/PB.

1.3. Rita de Torres Bandeira, nascida em 1848 em Sousa/PB.

1.4. José Cavalcante de Torres Bandeira

1.5. Joaquina Clara de Torres Bandeira

1.6. Coriolano Cavalcante de Torres Bandeira

1.7. Horácio Macena de Torres Bandeira

1.8. Bernardino Cavalcanti de Torres Bandeira

1.9. Maria Florença de Torres Bandeira

1.10. Aureliano Cavalcante de Torres Bandeira

1.11. Maria de Torres Bandeira

1.12. Manoel de Torres Bandeira

1.13. Maria Cavalcante de Torres


2. Margarida Vieira de Torres Bandeira, nascida em 1844.

3. Rita Vieira de Torres Bandeira, nascida em 1845.

4. Maria Vieira de Torres Bandeira, nascida em 1847 em Sousa/PB.

5. Manoel Vieira de Torres Bandeira, nascido em 1848 em Sousa/PB.

6. João Vieira de Torres, nascido em 1849 em Sousa/PB.

7. Cândida Vieira de Torres Bandeira, nascida em 1850 em Sousa/PB.

8. Francisca Maria do Amor Divino, nascida em 1858 em Pombal/PB.

9. Theodolina Maria da Conceição, nascida aproximadamente em 1860.

10. Enedina Vieira de Torres Bandeira,  nascida aproximadamente em 1862.

11. Manoel Antônio Vieira, nascido aproximadamente em 1864.

12. Maria Joana de Torres Bandeira, nascida aproximadamente em 1870.


Pombal/PB

Em 1695, o capitão-mor Teodósio de Oliveira Ledo encontrava-se na região rural das Piranhas, num local chamado Arraial do Piancó, tentando estabelecer uma nova comunidade. O maior obstáculo eram as tribos indígenas tapuias, especificamente os Tarairiús, Curemas e Panatis, que viviam na área.

No ano de 1697, Teodósio viajou até a capital da Província e pediu ao governador Manoel Soaresde Albergaria, soldados, suprimentos, armamentos e munições para remover os indígenas da área. Após receber o apoio, Oliveira Ledo voltou e obteve "bom sucesso" contra os nativos, fundando em 27 de julho de 1698 a nova povoação de Nossa Senhora do Bom Sucesso do Piancó (Pombal); há 325 anos.


Sousa/PB

A colonização inicial da região oeste da Paraíba, nas proximidades do rio do Peixe, por imigrantes oriundos da Bahia, Pernambuco e São Paulo, teve início no final do século XVII, após estabelecerem laços de amizade com a tribo indígena Icós. A exploração das áreas interiores durante os séculos XVI e XVII foi um processo lento, exigindo que os desbravadores realizassem um grande trabalho para conquistar terras menos conhecidas e mais distantes da costa. Entre esses exploradores, estava o sertanista Sargento-mor Antônio José da Cunha, que em 1691 encontrou um pequeno riacho chamado "Peixe", habitado pela nação indígena Icó Pequeno. Em 1708, José da Cunha solicitou uma sesmaria e recebeu apoio do governador João da Maia da Gama, o que permitiu que outros desbravadores se estabelecessem na região com suas propriedades rurais. O franciscano Frei João de Matos Serra assumiu, no início dos anos 1700, a tarefa de agrupar os indígenas sobreviventes, iniciando assim a formação da futura Vila.

No ano de 1723, os padres Francisco e Teodósio de Oliveira Ledo chegaram ao local, transferiram a posse do território para a Casa da Torre da Bahia e tornaram-se proprietários das áreas banhadas pelos rios do Peixe e Piranhas. A ocupação do espaço ocorreu de forma gradual, com os habitantes das margens dos rios e os paulistas que chegavam para estabelecer suas fazendas com gado e cultivos. Nessa época, o vilarejo já possuía uma população de 780 pessoas.

A riqueza da terra despertou o interesse de habitantes que queriam cultivá-la. Nessa área, BentoFreire de Sousa e José Gomes de Sá também estabeleceram suas propriedades rurais. Assim, a comunidade foi se desenvolvendo e, em 1730, contava com 1.468 moradores, conforme registros do Cabido de Olinda. O aumento populacional chamou a atenção de Bento Freire, que residia na Fazenda Jardim e decidiu organizar a comunidade. Ele solicitou uma concessão, viajando à Bahia para obter da Casa da Torre a doação da sesmaria, cujas terras seriam destinadas a Nossa Senhora dos Remédios. Com a aprovação da solicitação, Bento Freire construiu a primeira capela em homenagem a Nossa Senhora dos Remédios, que é atualmente conhecida como Igreja do Rosário dos Pretos. Ele tornou-se o primeiro responsável pelo patrimônio da "Freguesia de Nossa Senhora dos Remédios do Jardim do Rio do Peixe", elevando-a à condição de povoado.

As terras do antigo Jardim do Peixe eram de propriedade do Coronel Francisco Dias D'Ávila e sua mãe, D. Inácia D'Araújo Pereira, pertencentes a uma família nobre da Casa da Torre da Bahia, que as doaram ao patrimônio de Nossa Senhora dos Remédios a pedido de Bento Freire em 1740. Entretanto, esse processo se prolongou até 1756, com muitas idas e vindas de Bento Freire à Bahia, até que finalmente, em 1760, ele conseguiu uma decisão que legalizou de forma definitiva a criação do patrimônio de Nossa Senhora dos Remédios. Bento Freire supervisionou o patrimônio até 1765, culminando com êxito uma luta de quase cinquenta anos para construir o que viria a ser o município de Sousa.

A localidade conhecida como Jardim do Rio do Peixe, seu nome original, foi promovida à condição de Vila por uma decisão real, formalizada pela Carta-Régia datada de 22 de julho de 1766. Embora tivesse o status de distrito, a localidade manteve sua denominação original. Em 1784, a Matriz de Nossa Senhora dos Remédios foi separada da Nossa Senhora do Bom Sucesso de Pombal.

No dia 04 de junho de 1800, o Ouvidor Geral José da Silva Coutinho estabeleceu oficialmente a Vila Nova de Sousa, por meio de uma Resolução do governador de Pernambuco datada de 26 de março de 1800, após solicitação da comunidade liderada por Patrício Joséde Almeida, Matias de Figueiredo Rocha e Pe. Manoel Vieira da Silva. Um dia antes, o Capitão Alexandre Pereira de Sousa fez uma doação de terrenos para ajudar o desenvolvimento da localidade em crescimento. Através da Lei Provincial nº 28, de 10 de julho de 1854, a Vila de Sousa foi elevada a cidade, passando então a se chamar Sousa, que atualmente é conhecida como "Cidade Sorriso".




Texto de Eugênio Pacelly Alves



Referências bibliográficas:

Capitão Antônio Vieira de Torres Bandeira. Disponível em: >(https://www.familysearch.org/pt/tree/person/details/G4HS-ZH1)<. Acesso em 04 de março de 2025.

Francisca Ursulina do Amor Divino. Disponível em: >(https://www.familysearch.org/pt/tree/person/details/G2MH-ZX8)<. Acesso em 04 de março de 2025.

O alvorecer da república em Pombal/PB. Disponível em: >(http://cariricangaco.blogspot.com/2018/08/o-alvorecer-da-republica-em-pombal.html)<. Acesso em 04 de março de 2025.

Pombal/PB. Disponível em: >(https://www.pombal.pb.gov.br/historia/)<. Acesso em 04 de março de 2025.

Sousa/PB. Disponível em: >(https://www.sousa.pb.gov.br/cont.php?termo=historia)<. Acesso em 04 de março de 2025.