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A partir da metade do século
XIX, tanto a Europa quanto a Ásia estiveram envolvidas em grandes movimentos
migratórios, que surgiram devido a mudanças sócio demográficas, às
transformações causadas pela expansão do capitalismo e a instabilidades
políticas. A transição demográfica, que começou no século XVIII, dificultou a
absorção dos excedentes populacionais por esses continentes, levando à
emigração em larga escala. Fatores como o avanço das comunicações e a
diminuição dos custos de transporte contribuíram para essa situação (Klein,
1989; Bassanezi, 1996).
No Brasil, a abundância de
terras não cultivadas, a acessibilidade do mercado de trabalho, a expansão do
capitalismo e várias circunstâncias momentâneas fizeram do país um destino
atrativo para imigrantes. Entre 1890 e 1930, mais de 3,5 milhões de imigrantes,
incluindo europeus, asiáticos e árabes, entraram no Brasil. O país se inseriu
plenamente no contexto global de imigração em massa, rivalizando com os Estados
Unidos e a Argentina, sendo identificado como o terceiro maior receptor de
imigrantes na América (Bassanezi, 1996).
Diferentemente de outros
estados do Brasil, Pernambuco não foi um destino popular para os imigrantes
europeus, asiáticos e árabes que chegaram a partir do final do século XIX. A
escolha normalmente recaiu sobre estados como São Paulo, que se destacou por
receber a maior parte dos imigrantes que habitavam o Brasil.
Entretanto, os censos
históricos realizados em 1872, 1890, 1900 e 1940 mostram que Pernambuco foi o
segundo estado do Nordeste a acolher um número significativo de imigrantes; a
Bahia foi o primeiro. O censo de 1920 revelou que Pernambuco tinha uma
população estrangeira considerável; Recife abrigava 86,7% dos 11.698 imigrantes
em todo o estado, sendo que a maior parte dessa imigração ocorreu de forma
espontânea, ou seja, bancado pelos próprios imigrantes.
Ao longo de sua trajetória,
Recife reuniu imigrantes de diversas nacionalidades, que ajudaram a moldar a
demografia e a cultura do local. Esse “conjunto diversificado de nacionalidades”
(Hirano e Carneiro, 2016) começou a se formar durante o período colonial com a
presença dos portugueses e holandeses e com a abertura dos portos; novos
elementos foram se adicionando à base lusitana trazidos pelos estrangeiros
(Diegues Junior, 1964).
Os ingleses chegaram ao
Recife após a Abertura dos Portos, em 1808, tornando-se uma comunidade
significativa entre a população local. Recife é uma das poucas cidades no
Brasil que possui um cemitério britânico, inicialmente chamado de British
Cemetery. Esse espaço foi doado por D. João VI ao Cônsul Inglês após a Abertura
dos Portos. Em 1838, a comunidade inglesa construiu a Holy Trinity Church,
conhecida popularmente como "igrejinha dos ingleses", que foi
demolida em 1946 devido à necessidade de alargamento da rua, sendo
posteriormente reconstruída em outro local. Ao longo do século XIX e nas
primeiras décadas do século XX, diversos edifícios foram erguidos por
imigrantes ingleses (Vainsencher, 2009; Tavares, Colvero, 2015).
Além das construções, os britânicos
foram os primeiros a explorar serviços públicos, como as instituições
bancárias, a engenharia hidráulica para o processo de purificação do açúcar
(Vainsencher, 2009), e a introdução do primeiro trem urbano do Brasil, o
maxabomba, uma pequena máquina a vapor com três vagões para passageiros, além
de outros serviços fundamentais que foram confiados a companhias britânicas
(Duarte, 2005).
No início do século XIX,
Recife tinha um Consulado Geral dos Estados Unidos, criado em 1815, sendo este
o mais antigo posto de representação diplomática americana no Brasil. Ainda no
século XIX, no dia 4 de abril de 1886, missionários dos Estados Unidos fundaram
a primeira Igreja Batista em Recife, que a princípio foi chamada de Egreja de
Christo. Essa igreja é reconhecida como o sexto templo batista estabelecido no
Brasil (Silva, 2003).
Os missionários batistas dos
Estados Unidos também foram os fundadores do primeiro Colégio Batista do
Recife, que iniciou suas atividades graças aos esforços dos Doutores William
Henry Canadá e Salomão Luiz Ginsburg (Silva, 2012). A aula inaugural ocorreu em
1902, em uma pequena casa ao lado da Igreja Batista, com a participação de
quinze estudantes. No dia 15 de janeiro de 1906, os missionários abriram o
Colégio Americano Gilreath, que passou a ser conhecido como Colégio Americano
Batista em 1916.
Foi neste colégio que o
sociólogo Gilberto Freyre começou e finalizou seus estudos entre 1908 e 1917.
Seu pai, Dr. Alfredo Freyre, além de ser professor (1907-1934), usou sua
influência para promover a reputação do Colégio na sociedade de Recife (Silva,
2012). O Colégio Americano Batista ainda opera, oferecendo ensino de qualidade.
Um acontecimento
significativo ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial, entre 1941 e o início
de 1944, quando Recife foi selecionada como a base naval da U. S. Navy,
resultando em um aumento considerável do número de norte-americanos na cidade.
Durante a estadia das tropas americanas, foram criados dois locais de lazer e
entretenimento, acessíveis ao público local: o U. S. O Club, localizado no
prédio do Cassino Americano, atualmente no bairro do Pina; e o U. S. O. Town
Club, que ficava na antiga av. 10 de novembro, hoje conhecida como rua do Sol
(Siqueira, 2020).
Em 1840, a sociedade de Recife já era influenciada por
elementos franceses na moda, literatura e gastronomia, sendo o estilo francês o
preferido da população. Nesse período, estavam em andamento iniciativas para
modernizar a infraestrutura urbana, lideradas pelo presidente da província,
Francisco do Rego Barros, o Conde da Boa Vista, que contou com a colaboração do
engenheiro Louis-Léger Vauthier e sua equipe. Juntamente com outros
engenheiros, Vauthier foi responsável por diversos projetos de estradas e
edificações, incluindo o Teatro Santa Isabel, projetado no estilo da
arquitetura neoclássica (Poncioni, 2010).
Um exemplo da influência francesa na arquitetura é a
construção do Hospital Pedro II, que foi realizado segundo o modelo criado pelo
médico Jacques-René Tenon, seguindo o estilo pavilhonar (Pereira, 2011). A
presença francesa em Recife, unida ao desejo por modernidade, teve um grande
impacto nas primeiras décadas do século XX em relação à culinária. A sociedade
experimentava uma espécie de "belle époque" em sua gastronomia local
(Toscano, 2013). Os franceses enfrentavam concorrência intensa dos ingleses nos
mercados internacionais. Seu impacto mais significativo se manifestou na vida
intelectual, com a França servindo como um centro de uma revolução
bibliográfica (Mota, p. 47, 1970).
No começo do século XX, os
alemães que viviam em Recife já tinham empresas financeiramente robustas;
muitos acumularam riquezas como comerciantes e fizeram contribuições
importantes nas artes. Um caso notável é o do arquiteto de origem alemã, que
obteve nacionalidade brasileira, Heinrich Moser, que chegou a Recife em 1910.
Ele foi convidado por sua tia Júlia Doederlein, conhecida como Madame Júlia,
para ajudar na reforma de um prédio que era de sua propriedade: a Casa Alemã,
um comércio luxuoso localizado na Rua Barão da Vitória, atualmente chamada Rua
Nova. Moser trouxe a cultura dos vitrais para prédios públicos em Recife, sendo
lembrado especialmente pelo magnífico vitral triplo que produziu para o Palácio
da Justiça. Ele foi um dos primeiros a introduzir a produção de vitrais na
região Nordeste (Lócio, 2018).
Além de suas ações no
comércio, na indústria e nas artes, os alemães também contribuíram nas áreas da
saúde e da educação. O Abade Beneditino Dom Pedro Roeser foi um dos principais
responsáveis pela fundação do Hospital do Centenário, que foi inaugurado em 3
de maio de 1925, e que se tornou fundamental para a profissionalização da
enfermagem em Recife. Dom Pedro Roeser trouxe da Alemanha onze enfermeiras
formadas, que faziam parte da Cruz Vermelha Alemã, para implementar um serviço
de enfermagem considerado de alta qualidade na época. Ademais, Roeser esteve
envolvido na fundação da Primeira Escola de Agricultura e Veterinária do
Brasil, atualmente conhecida como Universidade Federal Rural de Pernambuco
(Abrão et al, 2010).
A emigração de portugueses
para Recife teve suas particularidades. Foi um processo de emigração inicial,
que começou durante o período colonial e se estendeu até a primeira década da
década de 1960, com uma diminuição significativa no fluxo após esse período.
Por um longo tempo, os portugueses representaram o maior grupo espontâneo de
imigrantes em Pernambuco e foram o mais relevante contingente estrangeiro a
entrar em Recife (Ferraz, 2014; Câmara, 2012).
Os portugueses estavam
presentes em diversos setores da economia de Recife e exerciam várias funções,
sendo especialmente notáveis no comércio de fazendas, lojas de secos e
molhados, além de outros tipos de estabelecimentos de varejo. Eles se
destacaram na atividade de caixeiragem, tanto em grandes quanto pequenos
negócios. A proeminência dos comerciantes portugueses na praça comercial de
Recife causou desconforto entre esses e os comerciantes locais, gerando tensões
de natureza antilusitana. Conflitos de lusofobia também foram observados entre
membros do exército que criticavam os abusos dos oficiais portugueses. Esses
incidentes foram significativos na presença portuguesa em Pernambuco até a
década de 1930 (Ferraz, 2014; Câmara, 2012).
Simultaneamente ao movimento
antilusitano, a comunidade portuguesa no Recife fortaleceu sua relevância
econômica e política na sociedade. Redes de apoio foram formadas através de
entidades étnicas que atuavam como espaços de convivência para os imigrantes,
ajudando a reforçar a identidade cultural e social, além de oferecer um caráter
associativo ao grupo. Entre essas entidades, destacam-se o Gabinete Português
de Leitura de Pernambuco, criado em 1850, o Clube Almirante Barroso, fundado em
1909, e o Clube Português do Recife, estabelecido em 1934. Os portugueses
também deixaram sua marca em áreas como língua, música e arquitetura (Ferraz,
2014; Câmara, 2012), além de serem grandes empresários (Mendonça, 2010).
De acordo com um
levantamento sobre a herança portuguesa feito pela Fundação Calouste Gulbenkian
(Lisboa-PT), a cidade de Recife possui um dos mais significativos patrimônios
lusitanos do Brasil. No total, são dezenove construções nas áreas de
arquitetura religiosa, militar e residencial. Recife é a terceira capital
brasileira com o maior número de exemplos do urbanismo português ultramarino
(Diário de Pernambuco, 06/05/2017).
Antes da significativa
migração de judeus que ocorreu no século XVII, "cristãos novos
hispano-portugueses" já habitavam o território pernambucano. O pesquisador
Odmar Braga relata que, entre 1580 e 1595, existiam duas sinagogas localizadas
no Alto da Ribeira e no Engenho Camaragibe, pertencentes à mesma família
(Pascoal, s/d).
No século XVII, judeus da
Península Ibérica, que fugiam da Inquisição, chegaram ao Recife. Portugal
implementou a distribuição de terras para assegurar a posse da terra. Para ter
direito à terra, os judeus precisaram se converter, tornando-se cristãos novos
(Pascoal, s/d).
O intenso fluxo migratório
coincidiu com a ocupação holandesa, entre 1630 e 1654. Durante esse período, os
judeus, conhecidos como sefarditas, afirmaram sua identidade religiosa, já que
a Holanda, um país calvinista, suportava diversas vertentes religiosas. Sob a
tutela do governo de João Maurício de Nassau-Siegen, os judeus formaram uma
comunidade próspera, estimando-se que sua população variava entre 1.500 e 5.000
indivíduos (Pascoal, s/d; Kaufman, 2000; Lurdermir, 2005).
No início do século XX, uma
nova comunidade judaica se instalou em Recife, optando pelo bairro da Boa Vista
para residência, ao lado dos ingleses que já moravam lá. Recife acolheu judeus
de várias origens, como russa, ucraniana, romena e eslava, que compartilhavam a
língua, a cozinha e as festividades religiosas, destacando a identidade
cultural desse grupo (Kaufman, 2000; Lurdermir, 2004, 2005).
Desde o começo do século
XIX, os imigrantes italianos já faziam parte da sociedade de Recife. Alguns
chegaram acompanhando companhias líricas, que realizavam peças de teatro,
óperas e concertos, enquanto outros vieram como engenheiros, arquitetos e
artistas, ajudando a transformar os espaços urbanos da cidade. A maioria chegou
com pouco dinheiro e, com o tempo, conseguiu melhorar sua situação financeira.
No final do século XIX, devido a várias melhorias, como a modernização do Porto
do Recife, o crescimento da cidade e a expansão das iniciativas privadas no
comércio e na indústria, houve um aumento significativo de imigrantes italianos
(Andrade, 1992).
A comunidade italiana teve
um papel importante no comércio, especialmente nas áreas de alfaiataria,
calçados, alimentos, objetos de decoração e tinturaria, tornando-se fundamental
para o desenvolvimento industrial do estado, especialmente na década de 1920.
Em 1920, por exemplo, o italiano Giuseppe Francesco Conte fundou a Indústria
Metalúrgica Pernambucana, hoje conhecida como Alumínio IPAM Indústria e
Comércio, que ofereceu emprego a um número relevante de descendentes. Nesse
mesmo ano, a fábrica de refrigerantes Fratelli Vita, que funcionava em Recife
desde 1913, prosperou e mudou-se para um edifício maior localizado na Praça da
Soledade (Andrade, 1992; Albuquerque, 2017).
Devido à relevância de seu
porto e ao desenvolvimento industrial, em setembro de 1921, foi criada no
Recife a Câmara Italiana de Comércio para as regiões Norte e Nordeste, com o
propósito de facilitar o intercâmbio de mercadorias, pessoas e ideias. Além de
unir a comunidade italiana, principalmente em Pernambuco, sua missão era
proteger e promover o avanço das relações comerciais entre Brasil e Itália.
Os imigrantes italianos em
Recife contaram com o benefício de uma agência do Banque Française et
Italienne. Tommaso Febaro era o presidente, enquanto o consulado italiano Bruno
Zuculin exercia a presidência honorária. No Norte-Nordeste do Brasil, o Banque
tinha filiais apenas em Recife e Salvador (Andrade, 1992; Albuquerque, 2017).
O historiador Vittorio
Cappelli declara que, “do ponto de vista quantitativo, a presença italiana no
Recife é a mais forte de todo o Nordeste” (CAPPELLI, 2007, p. 21).
A presença da Espanha em
solo recifense remonta aos primeiros tempos da colonização. Pouco se sabe sobre
essa imigração. Em 1920, o censo revelou a existência de 1.014 espanhóis no
estado de Pernambuco (IBGE). Em seus estudos sobre a migração espanhola para o
Brasil, Martinez (2000, p. 248) indicou que em 1931, 476 espanhóis viviam no
Recife, dos quais a maioria, cerca de 70%, eram galegos, 5% catalães, 5%
andaluzes, 5% castelhanos velhos e 10% oriundos de outras áreas. De acordo com
a autora, na época, o Consulado mantinha uma conta de poupança conhecida como
Caja de Ahorros.
Os imigrantes do Oriente
Médio começaram a chegar ao Recife no começo do século XX, oriundos da
Palestina, Síria e Líbano. Suas principais atividades profissionais incluíam
comércio e trabalho em indústrias pequenas. Esses imigrantes se estabeleceram e
abriram seus negócios no bairro de São José, ocupando diversas ruas na área. Na
Transição das décadas de 1930 para a de 1940, foi criado o Esporte Clube do
Oriente, que se tornou não apenas um espaço de convivência social, mas também
formou equipes de futebol e vôlei. Na primeira metade da década de 1940, a
comunidade libanesa fundou o Clube Líbano Brasileiro, que inicialmente funcionou
no bairro de Casa Amarela. Posteriormente, sua nova sede foi inaugurada no fim
da década de 1950, no bairro do Pina, se tornando um ponto de encontro para
sírios, libaneses e a comunidade árabe que reside no Recife. O Recife abriga a
segunda maior população palestina (e seus descendentes) no Brasil (Hazin,
2016).
Os primeiros imigrantes
japoneses a se estabelecer no Recife foram Asanobuske Gemba e seu filho
Matsuichi, que chegaram em 1918. Eles se instalaram no bairro do Cordeiro e
começaram a cultivar hortaliças. Durante a década de 1930, outros japoneses
também começaram a se estabelecer na cidade. Atualmente, Pernambuco abriga a
terceira maior comunidade japonesa do Brasil, concentrando-se especialmente no
Recife, Bonito e Petrolina (Portal Nippo Brasil, s/data).
Os imigrantes chineses
começaram a se instalar no Recife a partir do início dos anos 1920. Eles se
estabeleceram no centro da cidade, atuando em serviços de lavanderia, pequenos
comércios e fabricação de mosqueiros. Em 1936, a comunidade chinesa contava com
103 homens, a maioria solteiros, que coabitavam com mulheres brasileiras
(Diário de Pernambuco, 12/02/1936). Segundo uma publicação do Diário de
Pernambuco, “as mulheres não [deixavam] seu país facilmente.” A população
chinesa na cidade começou a crescer a partir da década de 1970.
Embora em menor quantidade, imigrantes de outras
nacionalidades, como suíços, escoceses, gregos, dinamarqueses, russos e belgas,
também ajudaram a formar o que hoje podemos chamar de “Recife: uma sociedade
plural.”
Texto de Eugênio Pacelly Alves
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